sexta-feira, 15 de julho de 2016

Matemática Cruel

23 anos de rabiscos documentados no Flickr (http://bit.ly/29WnzII)
823 rabiscos levantados no processo...
Como eu sei que muita coisa se perdeu antes dessa história de documentar, vou ser generosa e imaginar que produzi uns 20% a mais...  988 rabiscos.
988 rabiscos, em 23 anos... 43 rabiscos ao ano (na média).

Fila de uns 30 Sketchbooks em branco ou apenas começados esperando atenção.
Que cada um deles tenha umas 70 folhas (apenas os com menos páginas tem isso, então a média já está generosa), tenho 2100 folhas de sketchbooks a preencher...
Se juntar com blocos de desenho e papéis avulsos, esse total vai fácil para umas 2500 folhas (em páginas seria o dobro).

Se eu seguisse a minha média de 43 rabiscos/ilustrações por ano, nos próximos anos, teria material de desenho pelos próximos 58 anos.
Como eu estou com 35 (no inferno astral dos 36) e me alimento mal, sou sedentária e estou acima do peso, é generoso dizer que tenho material de desenho pelo resto da vida.

Mas vamos ser otimistas... Digamos que eu me torne outra pessoa, e faça realmente um desenho todos os dias a partir de agora... São 6 anos (quase 7) de material...
Se eu me tornasse hiper-produtiva, e produzisse dez vezes mais que hoje... Seriam 5 anos (quase 6) de material.

E eu não preciso entrar nem na parte do material para rabiscar o sketchbook em si... Eu fiz um curso de desenho no SENAC em 1994, e ainda tenho os lápis graduados que usei no curso. Então com as caixas de Cretacolor, Staedtler, Faber e Cis Nataraj que eu tenho, é seguro dizer que não precise de mais nada pra esses 58 anos de desenho.

Então...

POR QUE DIABOS EU NÃO DESENHO REGULARMENTE?

Uma pessoa sensata diria que isso não acontece porque apesar de eu gostar disso, eu não valorizo o suficiente para fazer algo a respeito. É uma resposta sensata... Mas como a maioria das respostas sensatas, é um monte de besteira.

Pessoas um pouco menos sensatas sabem que existem diversas coisas muito importantes e valorizadas em nossas vidas que, acabam, de uma forma ou de outra, tratadas como secundárias: relacionamentos, família, amigos, saúde... Mesmo sabendo algumas vezes que estamos na estrada pra destruição, a gente pisa no acelerador e fica esperando bater em um muro ou um poste. Às vezes, mais desesperados, a gente procura por esse muro ou esse poste como o momento mágico que vai mudar tudo: vamos começar a nos comportar direito, nos importar, nos valorizar e sair saltitando em direção aos nossos sonhos.

Não acontece assim.

Olhando os álbuns e os números, não pude nem me dar ao luxo de me enganar e dizer que quando a vida cobra demais essas coisas ficam de lado. Misteriosamente, as maiores produções são dos períodos mais atribulados. As melhores, ainda mais.

O diabo aqui -- pelo menos o meu -- é saber PORQUÊ fazer isso.
E não dá, simplesmente não dá, para entender isso intelectualmente... Tem que colocar o lápis no papel e tentar descobrir para onde ele te leva.
A questão é: como colocar o lápis no papel, dia após dia, regularmente, sem se perder no caminho.

Postagem com altas doses de instrospecção filosófica.
Desculpe aos envolvidos que conseguiram chegar até aqui.
Mas se tiverem ideias... Eu realmente gostaria de ouvi-las. 

Um comentário:

  1. Bom dia, hoje descobri o seu blog e gostei muitíssimo do que já li. Partilho das mesmas dúvidas e uma certa "culpa" de não produzir mais, já que me sinto muito bem fazendo minhas ilustrações. Mas por outro lado, a paixão de desenhar não me consome, mas sim me alimenta. Procuro sorver o momento de desenhar quando eu necessito. Mas sempre tem alguém dizendo: "por que você não desenha mais? Poderia fazer um curso, se profissionalizar..." Mas tenho a sensação de que aparar as arestas não me deixaria mais feliz do que da forma que lido com meu lado "artista". Acho que essa tensão mantém meu desenhar vivo! E sigo tentando melhorar no meu rítmo (indo e vindo e rindo).

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