sábado, 14 de outubro de 2017

Quem guarda os guardiões? Provavelmente não você!

Inktober 2017, Dia 13.

Esse post se utiliza de um tanto de "linguagem adulta" -- se você se ofende com esses usos, recomendo parar a leitura por aqui... Que hoje o desabafo está queimando no sangue.

Existem algumas vantagens em ter um blog no cantinho do mundo, onde ninguém sabe que ele existe: poder opinar sobre as tretas que você vê por aí, sem aumentar a marola que elas geram. Uma "treta" recente do mundo dos rabiscadores foi com relação ao Inktober e o posicionamento de seu criador sobre o desafio dever ser preferencialmente realizado em tinta, e não em digital. Nem vou entrar muito no mérito muito dessa parte da questão, pq o meu posicionamento é bem quadradinho aqui... É claro que deveria ser realizado a tinta... A coisas chama Inktober! Não gostou? Tudo bem... Cria um "Digitober"; faz em digital e taca um "FDS Jake Paker, não vou me submeter aos seus caprichos!". Só não fica choramingando como se o criador de um desafio de arte final em tinta tivesse como obrigação unir todos os grupos em um desafio específico... Não tem... Ou será que alguém vê anúncio de desafio de "Corrida 5K" e sai perguntando se pode ir de bicicleta? Trotando? De patins?". 

Mas a coisa que "levantou os nervos" mesmo hoje foi o tread de uma ilustradora nacional, falando o que tem percebido no Inktober desse ano. Coisa número 1: muita cópia, Coisa número 2: muita falha de anatomia... E mais algumas outras coisas. Sabe porque me enerva? Pq grande parte das "ilustradoras" nacionais estão nessa zona cinza entre desenhistas e artistas plásticas, não tanto como ilustradoras, e querem ficar cagando ditando regra sobre como deve ser a prática artística alheia -- se você for cutucar mais um pouco nesses casos, cai naquele velho "essas coisas desvalorizam os profissionais do mercado", como se isso justificasse o discurso... E não justifica. Por diversos motivos.

Ilustrador é um termo profissional para quem ilustra comercialmente.
Já que vamos ser "fiéis" as raízes como todo mundo quer, sabe quem pode se dizer "ilustrador"? Quem trabalhar, comercial e de maneira remunerada, com ilustração. Não é quem enche sketchbooks com artes (por mais lindas que sejam), monta blog, tem canal no YouTube etc... Se você está fazendo tudo isso e ninguém te paga para ilustrar uma coisa específica, você não é um ilustrador. Se alguém te paga por uma arte criada por você e que não ilustra nada (nem uma matéria, nem um livro, nem um postal, nem nenhuma saída comercial) você está mais para um artista plástico, ou um desenhista se não quiser o peso da posição anterior...  Especialmente se você for "ilustrador" de print que acaba em quadrinhos na casa dos outros. 

Sabe quem pode desenhar? Quem tem um lápis... (ou mais especificamente, quem tem qualquer objeto que risque uma outra superfície). 
Sabe aquela história "como você sabe que tem um corpo para ir para a praia? 1) Tenha um corpo. 2) Vá a praia"??? Então, a mesma lógica pode ser aplicada ao desenho -- Você quer desenhar? Desenhe! Está ficando torto e isso te irrita? Vá estudar. Tá torto mas tá bom pra vc? Repita! Por mais que os chamados "profissionais" achem que tem uma carteirinha de "guardiões da arte, orientamos 24 horas por dia quem pode participar do clubinho" eles não tem. Sim, você pode desenhar simplesmente por desenhar, pra se divertir, pra passar o tempo... Ou pode estar desenhando feio e torto e querer ganhar dinheiro com isso -- vai ser mais difícil? Provavelmente. Mas você ainda tem a última palavra sobre o seu desenvolvimento: se ele vai acontecer, como e em que velocidade. E não deixe ninguém que não paga seus boletos (ou compra seus lápis) lhe diga como ele deve ser feito. 

Pare de analisar o mercado e vá cuidar da sua barraca.
Isso é uma tendência nacional. Eu mesma sou culpada dela diversas vezes mas... Acho incrível como por aqui (e digo Brasil porque acompanho diversos artistas internacionais que não ficam perdendo tempo com isso) o pessoal quer problematizar cada coisinha que produz ou que é produzida... Não estou dizendo que a gente não deva pensar criticamente sobre as coisas ou sobre o contexto das coisas (é claro que precisa) -- mas você não precisa explicitar cada arroto que a sua mente tem a respeito dessas coisas.  Mais uma vez... Ninguém morreu e te elegeu guardião do mercado! Tem muita gente que acha que se utilizar "o lápis", "a caneta" especial que você usa vai fazer um desenho tão bom quanto o seu? Ótimo! Deixa eles acharem e desenhe mais... Se você é "ilustrador", desenhista, artista, seu trabalho é criar arte... Não trazer o conhecimento às pobres almas que não chegaram a esse entendimento.

Esse é um dos motivos pelo qual esse blog tem ficado sem pauta constantemente -- quando eu comecei, eu queria meio que fazer um "compêndio" de tudo o que eu já tinha aprendido até hoje -- tanto para reaprender e rever algumas coisas quanto para servir de referência para quem está aprendendo. Esse nem de longe é mais meu objetivo.  Se você for na coluna direita do blog, vai ver que o post mais acessado daqui -- e por uma longa margem -- é o post sobre onde comprar materiais de desenho na Web e presencial em São Paulo. Mesmo assim, ao longo dos anos, as pessoas tem mandado e-mails direto para o contato ou:
  1. Perguntando coisas que já estão explícitas no post.
  2. Perguntando coisas que não estão no post, e que poderiam ser facilmente Googadas. 
Na maior parte das vezes eu respondo. A questão não é não querer responder... Mas me conscientizar que por mais mastigado que esteja algo, existem pessoas que não vão conseguir compreender (por uma série de motivos que eu poderia discorrer no meu dia a dia de Design Instrucional que não cabem aqui), que não estão no momento de compreender ou que vão mesmo bater cabeça até aprender. E eu quero mesmo fazer os meus desenhos tortinhos menos tortos com o tempo... Não ser arauto pra um "caminho ideal" que nem posso garantir que está certo.

A concorrência final, se você quer mesmo concorrer com alguém, é com o que você fazia ontem -- então desconfie de quem fica perdendo tempo dizendo que o que você faz não é suficiente, que deveria ser feito de outro jeito, que deveria ser melhor, mais conceituado... Especialmente se: você não perguntou ou pediu por feedback, e se isso te desanima de produzir mais.

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